Tendinite calcária no ombro: por que dói tanto e quando o cálcio some sozinho
A tendinite calcária no ombro tem fases; a mais dolorosa é a que anuncia que o depósito começou a sair.
Médico examinando uma radiografia contra a luz da janela em um consultório
A dor chega de madrugada, sem queda e sem esforço, e em poucas horas o braço não sobe nem para pentear o cabelo. No pronto-socorro, a radiografia mostra uma mancha branca sobre o tendão, e o diagnóstico vem com um nome que confunde: tendinite calcária no ombro. A palavra "calcária" faz muita gente pensar em osso crescendo ou em cálcio demais no sangue. Não é nenhuma das duas coisas.
Trata-se de um depósito de cristais de cálcio no interior do tendão do manguito rotador, quase sempre no supraespinhal. Um médico que trata o ombro explica que o depósito se forma devagar, pode ficar meses sem doer e provoca a crise justamente quando começa a ser reabsorvido pelo corpo. A fase mais dolorosa é, paradoxalmente, a que anuncia o fim.
Como o cálcio vai parar dentro do tendão
Ninguém sabe ao certo por que isso acontece. A hipótese mais aceita é que uma parte do tendão, com pouco suprimento de sangue, sofre uma transformação das células, que passam a produzir cristais de cálcio. Não tem relação com dieta, com suplemento de cálcio nem com o cálcio do sangue.
O problema atinge mais mulheres do que homens, entre os 30 e os 50 anos, e é mais frequente em quem tem diabetes ou alterações da tireoide. Em boa parte dos casos, o depósito é descoberto por acaso, numa radiografia pedida por outro motivo.
O depósito pode medir de poucos milímetros a mais de dois centímetros. O tamanho não define a dor: um depósito grande e duro pode incomodar pouco, e um pequeno em fase de reabsorção pode ser insuportável.
Tendinite calcária no ombro: as fases e o que muda em cada uma
A tabela resume as fases da doença, como a dor se comporta e o que costuma ser feito.
| Fase | O que acontece | Dor | Conduta comum |
|---|---|---|---|
| Formação | Células do tendão passam a produzir cálcio | Ausente ou leve | Nenhuma, muitas vezes nem é descoberta |
| Repouso | Depósito duro, tipo giz, estável por meses ou anos | Ao levantar o braço, por compressão | Fisioterapia, ondas de choque |
| Reabsorção | Depósito amolece, tipo pasta de dente, e o corpo o remove | Intensa, súbita, com o braço travado | Analgesia forte, infiltração, aspiração guiada |
| Reparo | Tendão cicatriza no lugar do depósito | Diminui em semanas | Fisioterapia para recuperar movimento |
| Crônica | Depósito não é reabsorvido e segue comprimindo | Persistente há mais de 6 meses | Aspiração ou cirurgia por artroscopia |
O que fazer na crise aguda
Quando a dor chega de forma súbita e o braço trava, o roteiro das primeiras 72 horas é este:
- Procure atendimento: a dor da fase de reabsorção costuma exigir analgésico de prescrição, e não passa com o remédio da gaveta.
- Faça a radiografia. Ela confirma o depósito e mostra se ele está difuso, sinal de reabsorção.
- Use gelo por 15 minutos, várias vezes ao dia, com o braço apoiado num travesseiro.
- Deixe o braço em tipoia só nos momentos de dor intensa, e tire para movimentos leves de pêndulo.
- Se a dor não ceder em dois ou três dias, a infiltração com corticoide na bursa alivia em horas.
- A aspiração do depósito guiada por ultrassom pode ser feita na mesma fase, quando ele está amolecido.
Por que a dor da reabsorção é tão forte
Na fase de reabsorção, o depósito aumenta de volume ao absorver água, e o tendão incha dentro do túnel estreito sob o acrômio. Ao mesmo tempo, cristais escapam para a bursa e provocam uma inflamação química intensa. É uma dor que muitos pacientes comparam à de uma fratura.
O lado bom é que essa fase é curta: de duas a seis semanas. Depois dela, na maior parte dos casos, o depósito desaparece e o tendão cicatriza sem deixar sequela. Muitos pacientes que passaram pela crise contam que, meses depois, o ombro voltou a ser igual ao outro, e a radiografia de controle não mostra mais nada.
Tratamentos que funcionam fora da crise
Na fase de repouso, quando o depósito é duro e incomoda ao levantar o braço, a fisioterapia com fortalecimento do manguito e correção do ritmo da escápula reduz a compressão. O tratamento com ondas de choque extracorpóreas fragmenta o cálcio em parte dos casos, com boa resposta em sessões semanais por um a dois meses.
Já a aspiração guiada por ultrassom, chamada barbotagem, lava o depósito com soro e agulha e costuma ser indicada quando ele está amolecido. É feita em consultório, com anestesia local, e a melhora é rápida.
Quando a cirurgia entra
Operar fica para o depósito que não reabsorve, mantém dor há mais de seis meses e não respondeu a fisioterapia, ondas de choque e aspiração. Ela é feita por artroscopia: o cirurgião remove o cálcio, limpa a bursa e, quando necessário, repara o tendão no ponto onde o depósito deixou um defeito.
A recuperação leva de seis semanas a três meses. A maioria dos pacientes não chega a esse ponto, porque a doença tende a se resolver sozinha ou com os tratamentos menores.
Como diferenciar de outras causas de dor no ombro
Na tendinite comum, a dor ao erguer o braço piora aos poucos. Já a ruptura do tendão vem com fraqueza, e a capsulite adesiva trava o ombro em todas as direções, sem depósito no exame. O que mais distingue a forma calcária é o depósito visível na radiografia somado à crise súbita sem trauma.
Também precisa ser separada da gota, da infecção articular e da dor irradiada da coluna cervical, o que o exame clínico e, quando necessário, os exames de sangue resolvem.
Perguntas frequentes sobre tendinite calcária no ombro
Tendinite calcária no ombro tem cura?
Tem. Na maioria dos casos o depósito é reabsorvido e o tendão cicatriza. Uma minoria precisa de aspiração ou cirurgia.
Preciso cortar cálcio da alimentação?
Não. O depósito não tem relação com a dieta nem com o cálcio do sangue.
Quanto tempo dura a crise?
De duas a seis semanas. Com infiltração ou aspiração, a dor forte costuma ceder em dias.
Tendinite calcária aposenta?
Em regra, não. A doença costuma se resolver e o trabalhador volta à função. Casos crônicos podem gerar afastamento temporário.
A sessão de ondas de choque dói?
Incomoda durante a aplicação, mas é tolerável e feita sem anestesia. A resposta aparece após algumas sessões.
O cálcio pode voltar depois de sair?
É raro no mesmo tendão. Pode aparecer no outro ombro, o que acontece em uma parte dos pacientes.
Resumo
Tendinite calcária no ombro é um depósito de cálcio dentro do tendão do manguito rotador, sem relação com dieta, que dói mais quando começa a ser reabsorvido. A crise é curta e responde a analgesia, infiltração e aspiração guiada. Fisioterapia e choque extracorpóreo tratam a fase estável, e a cirurgia por artroscopia fica para o depósito que persiste com dor por mais de seis meses.


